Competitividade frente à gasolina e aumento das vendas aquecem o mercado com alta demanda.
A safra 2026/27 do setor sucroenergético começou em ritmo acelerado no Centro-Sul do Brasil, impulsionada pela recuperação da moagem, maior direcionamento da cana para o etanol e forte competitividade do biocombustível frente à gasolina. Os dados divulgados pela UNICA mostram um cenário de retomada após uma safra 2025/26 marcada por impactos climáticos e queda de produtividade agrícola.
Na segunda quinzena de abril, a moagem alcançou 40,06 milhões de toneladas, mais que o dobro do registrado no mesmo período da safra anterior. No acumulado até 1º de maio, o processamento somou 60,46 milhões de toneladas. O desempenho sinaliza uma recuperação importante da atividade industrial depois de um ciclo 2025/26 afetado pela seca e por condições climáticas adversas, que reduziram a moagem total para 611,15 milhões de toneladas, queda de 1,7% em relação ao ciclo anterior.
Além do maior volume processado, a safra atual começou com melhora na qualidade da matéria-prima. O ATR acumulado atingiu 112,58 kg por tonelada de cana, avanço de 5,4% na comparação anual. Esse indicador é estratégico porque mede a concentração de açúcar recuperável e influencia diretamente a rentabilidade das usinas, tanto na produção de açúcar quanto de etanol.
O dado mais relevante, porém, é a mudança no mix de produção. As usinas ampliaram de forma significativa a destinação da cana para o etanol. Na segunda quinzena de abril, quase 60% da matéria-prima processada foi direcionada ao biocombustível, contra 54,3% no mesmo período da safra passada. No acumulado do ciclo, o mix alcooleiro chegou a 61,84%.
Esse movimento reflete uma combinação de fatores econômicos e estratégicos. De um lado, o etanol ganhou competitividade nos postos. Segundo a ANP, a relação de preços entre etanol hidratado e gasolina ficou em 64,5% na média nacional e em 61,7% no estado de São Paulo — patamar considerado altamente favorável ao consumo do biocombustível. Como consequência, o etanol hidratado respondeu por 24,6% do consumo da frota leve no Brasil em abril, contra 23,2% em março. Em São Paulo, a participação atingiu 44%, o maior nível desde fevereiro de 2025.
A resposta do consumidor já aparece nas vendas. Em abril, as unidades do Centro-Sul comercializaram 2,74 bilhões de litros de etanol. No mercado doméstico, o volume vendido por dia útil cresceu mais de 15% em relação a março. O avanço foi puxado principalmente pelo hidratado, cuja demanda tende a acelerar ainda mais à medida que a redução dos preços nas usinas seja totalmente repassada ao consumidor final.
Outro ponto importante é o fortalecimento do etanol de milho. A produção do combustível a partir do cereal respondeu por cerca de 19% do etanol fabricado na segunda quinzena de abril. No acumulado da safra, já são mais de 804 milhões de litros produzidos, crescimento superior a 12% em relação ao mesmo período do ano passado. O avanço confirma a consolidação do milho como complemento estrutural à produção tradicional baseada na cana, especialmente em estados do Centro-Oeste.
Os números também reforçam o papel estratégico do etanol na segurança energética e na descarbonização da matriz de transportes. Segundo a UNICA, apenas na safra 2025/26 o consumo de etanol evitou a emissão de 50 milhões de toneladas de gases de efeito estufa, além de gerar economia de R$ 4 bilhões aos proprietários de veículos flex.
No mercado ambiental, o programa RenovaBio segue avançando. Até 25 de maio, os produtores de biocombustíveis emitiram 16,93 milhões de CBios. Somando os créditos já disponíveis para negociação e os títulos aposentados, o setor já ofertou cerca de 66% do volume necessário para o cumprimento das metas de descarbonização de 2026.
O cenário atual indica que a safra 2026/27 começa sob uma lógica diferente da observada nos últimos anos. Com preços mais competitivos, demanda doméstica aquecida, expansão do etanol de milho e maior protagonismo da agenda energética global, o etanol reforça sua posição não apenas como combustível renovável, mas também como ativo estratégico para segurança energética, redução de emissões e geração de valor para o agronegócio brasileiro.
