Com alta incidência entre jovens e vulneráveis, rede pública organiza tratamento integrado enquanto enfrenta limites de estrutura e capacitação
O vício em jogos de azar, ou ludopatia, ganhou status de problema de saúde pública no Brasil. Estimativas indicam que cerca de 11 milhões de brasileiros, aproximadamente 5% da população, apresentam dependência de apostas, sobretudo em plataformas digitais. O fenômeno afeta principalmente jovens e grupos vulneráveis, impulsionado pela ampla oferta online e fácil acesso via celular.
Diante do avanço, o governo federal passou a estruturar respostas no Sistema Único de Saúde (SUS). A publicação do Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas reforça que o enfrentamento exige abordagem coletiva e políticas integradas, alinhadas a experiências internacionais.
Porta de entrada e diagnóstico
O atendimento no SUS começa, em geral, pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). O acolhimento inicial busca compreender o comportamento sem julgamentos, tratando-o como expressão de sofrimento psíquico, não falha moral.
A avaliação inclui condições de vida, situação financeira, relações familiares e saúde emocional. Fatores como endividamento, prejuízos sociais, depressão, ansiedade e risco de morte são considerados. Casos leves ficam na atenção primária; quadros mais graves são encaminhados aos CAPS.
Tratamento multidimensional
O cuidado combina abordagens clínicas e psicossociais. Entre as estratégias individuais, destacam-se a terapia cognitivo-comportamental e a entrevista motivacional, voltadas ao controle de impulsos e prevenção de recaídas.
Intervenções familiares buscam reduzir conflitos e fortalecer redes de apoio. Em casos graves, o tratamento envolve diferentes níveis da rede de saúde, com acompanhamento contínuo.
Teleatendimento amplia acesso
Desde março, o SUS oferece teleatendimento em saúde mental pelo aplicativo Meu SUS Digital. Após triagem inicial, pacientes de risco moderado ou alto são encaminhados para consultas por vídeo, com duração média de 45 minutos. A capacidade inicial é de até 600 atendimentos mensais.
Estudos indicam que intervenções online podem reduzir sintomas, com boa adesão e custo menor. No entanto, especialistas alertam que casos graves respondem melhor ao acompanhamento presencial. Outro desafio é que o tratamento ocorre no mesmo ambiente digital em que o vício se manifesta.
Autoexclusão tem efeito limitado
Uma plataforma de autoexclusão permite bloquear o acesso a sites de apostas. Em pouco mais de um mês, foram registrados cerca de 217 mil pedidos. O usuário pode definir prazos de restrição ou optar por bloqueio indeterminado.
Apesar de útil, a medida tem eficácia limitada se aplicada isoladamente. Sem acompanhamento clínico, pode gerar falsa sensação de controle e ser contornada. Resultados mais consistentes aparecem quando combinada a psicoterapia e apoio familiar.
Desafios e necessidade de investimento
O enfrentamento da ludopatia ainda esbarra na falta de capacitação de profissionais e na sobrecarga do sistema de saúde. Embora o SUS tenha estrutura consolidada, a alta demanda dificulta o acompanhamento contínuo.
Especialistas defendem mais investimento em prevenção, tratamento e pesquisa, além da integração entre saúde, educação e assistência social.
