Vários fatores contribuem para situação crítica deste setor fundamental para economia do Rio Grande do Sul, entre eles, retração do consumo interno, elevação das importações de lácteos e preços pagos ao produtor
Produzir leite nunca foi uma tarefa fácil e sempre exigiu muito esforço, sacrifício, investimento, de quem se dedica a esta atividade agrícola complexa e que necessita 24 horas de atenção. Na bovinocultura de leite, fazer tudo que é preciso ser feito para produzir não é garantia de que o produtor terá lucro no fim do mês. Nesta primeira matéria, o Jornal Bom Dia traz um depoimento e uma análise geral deste setor que é fundamental para a economia do Rio Grande do Sul e a permanência dos produtores no campo.
Capo-Erê
“Foi um ano péssimo, deixo, aqui, um grito de socorro para os produtores da região. Estamos trabalhando no vermelho, não tem mais o que fazer e de onde tirar. A questão é, ou melhora ou vamos ter que parar, porque estamos trabalhando no prejuízo e sem ganhar nada é difícil. Quem consegue trabalhar o mês inteiro e chegar no fim do mês e não sobrar dinheiro, trabalhar de graça? É o que está acontecendo com o produtor de leite, estamos trabalhando de graça para as empresas, para o governo, para sei lá quem que está levando este dinheiro", desabafa o produtor de leite, Tiago Fabris, do bairro Pezzin, Distrito de Capoerê, que tem 20 vacas e produz 7 mil litros por mês.
Região Alto Uruguai
O médico veterinário, Frederico Modri Neto, responsável da Área de Criações e Agroindústrias da Emater/RS – ASCAR, afirma que a cadeia produtiva do leite, no Rio Grande do Sul, atravessa, no período 2024–2025, um dos cenários mais desafiadores das últimas décadas. “A convergência entre aumento da produção nacional, retração do consumo interno, elevação das importações de lácteos e dificuldades estruturais para exportação tem provocado forte pressão sobre os preços pagos ao produtor, impactando, diretamente, a sustentabilidade econômica da atividade, especialmente nas propriedades familiares”, observa ele.
Ele afirma que o Brasil vive um momento de crescimento da oferta de leite, resultado da melhoria das condições climáticas, da redução pontual do custo de alimentação animal e da intensificação produtiva nas propriedades que permaneceram na atividade. “Entretanto, esse aumento ocorre simultaneamente à diminuição contínua do número de produtores, com maior concentração da produção em sistemas médios e grandes. No Rio Grande do Sul, a tendência é semelhante, apesar da queda no número de estabelecimentos, a produção estadual mantém-se elevada, refletindo ganhos de produtividade e maior tecnificação dos sistemas de produção”, explica Frederico.
Consumidores
Conforme ele, os avanços produtivos esbarram em um mercado interno fragilizado. O poder aquisitivo das famílias brasileiras permanece reduzido, limitando o consumo de leite fluido e, de forma ainda mais expressiva, de derivados como queijos, iogurtes, manteiga e leite em pó. “Muitos consumidores têm substituído produtos lácteos por alternativas mais baratas ou diminuído a frequência de compra, o que reduz a capacidade de absorção da produção nacional. Este movimento tem forte influência sobre o desempenho da cadeia e gera repercussões diretas nas indústrias e nos produtores rurais”, afirma.
Importação
Frederico ressalta que associado ao consumo enfraquecido, verifica-se um volume significativo de importações de leite em pó da Argentina e do Uruguai. “Estes países possuem custos de produção inferiores e políticas de incentivo à exportação mais estruturadas. Desta forma, conseguem ofertar leite em pó ao mercado brasileiro a preços muito competitivos, utilizados amplamente pela indústria nacional na formulação de diversos derivados lácteos. Mesmo com medidas recentes de antidumping, o volume importado segue elevado, pressionando ainda mais o preço pago ao produtor gaúcho e brasileiro”, analisa ele.
Mercado internacional
Conforme ele, ao mesmo tempo, o Brasil apresenta baixa participação no mercado internacional de exportação de lácteos, decorrente do alto custo de produção interno, da ausência de incentivos fiscais consistentes e da pouca competitividade frente a países tradicionais exportadores. A ausência de um canal externo de escoamento impede a redução dos estoques internos e limita a recuperação dos preços no mercado doméstico.
Ele enfatiza que a combinação desses fatores resulta em um ambiente de grande instabilidade econômica para o setor leiteiro. “Muitos produtores familiares enfrentam margens negativas, o que compromete a manutenção da atividade, reduz investimentos e intensifica o processo de abandono da produção. Em diversas regiões do Estado, inclusive na nossa região do Alto Uruguai, observa-se a saída de pequenos produtores, a redução de rebanhos e a busca por atividades alternativas de menor risco econômico”, observa Frederico.
Necessidade de ações articuladas
Diante deste cenário, acrescenta Frederico, a Emater/RS-ASCAR reforça a importância de um conjunto de ações articuladas, envolvendo políticas públicas estaduais e federais, medidas de regulação de mercado, apoio à competitividade industrial, fortalecimento da agricultura familiar e estratégias que permitam ampliar o consumo interno e reduzir a vulnerabilidade às importações.
“A instituição permanece comprometida com o assessoramento técnico, a qualificação dos sistemas de produção, o estímulo à gestão eficiente das propriedades e o fortalecimento da renda das famílias rurais, atuando de forma integrada com prefeituras, cooperativas, indústrias e demais atores do setor”, destaca Frederico.
Conforme o responsável da Área de Criações e Agroindústrias da Emater/RS – ASCAR, a cadeia do leite é estratégica para a economia do Rio Grande do Sul e para a permanência das famílias no campo. “A superação do atual momento exige coordenação entre os diferentes elos, planejamento e políticas duradouras que assegurem estabilidade ao produtor rural e competitividade ao setor produtivo gaúcho”, ressalta ele.
